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O tempo dos selos

Outro dia, voltando do cinema, lembrei dessa amiga de infância. Fomos amigas durante a transição da infância para a adolescência e, consequentemente, durante a transição dos anos 90 para os anos 2000.


Lembrei desse dia que passamos da manhã até a noite no computador. Entre um e outro layout no (falecido) FrontPage, horas construindo casas no The Sims ou enchendo nossas pastas de gifs brilhantes, ela me disse "Acho que sinto saudade de quando a gente passava o dia na TV".



Na época, achei até engraçado. Anos antes, estávamos sempre brigando pelo controle remoto, com nossas mães reclamando das horas gastas na frente da Fox Kids ou Nickelodeon. Era a grande vilã da nossa infância, competindo por nossa atenção com Barbies e jogos de tabuleiro. Durou até aquele verão de 2000, quando o computador assumiu nossos finais de semana e a TV virou uma preocupação ultrapassada para nossas mães.


Pensei muito nessa fala da minha amiga depois de assistir Toy Story 5. Acho que o que mais me pegou foi a falta de um "final feliz", a conclusão de que telas fazem parte do mundo moderno e, em algum momento, resta aos pais aceitá-las como inevitáveis. Pensei, então, nos meus anos construindo sites e brincando no Photoshop, até o vilão assumir a forma de doomscrolling. Saí do cinema com uma angústia difícil de expurgar.


Como mãe, tento preservar meu filho desse mundo o máximo que consigo. Ele raramente vê televisão, não sabe o que é um tablet e acha que celular serve apenas para falar com a avó. Mas, como indivíduo, percebo que também perdi alguma coisa no caminho. Já não consigo tomar banho sem colocar um podcast e vivo com um senso de urgência permanente, correndo de uma tarefa para outra, como se até os minutos precisassem ser produtivos.



Talvez, por isso, esse tenha sido o ano em que comecei a testar alguns hobbies analógicos. Pintura, pirografia, culinária, crochê, cartas. Entrei, inclusive, em um mail club que tem deixado meu coração quentinho. Escrever cartas me levou de volta justamente àquela época da amizade de infância, de relações sendo construídas aos poucos. Às vezes passam-se meses entre uma resposta e outra e, nesse intervalo, a vida vai acontecendo.



Cartas me preenchem de uma forma tranquila. Existe um cuidado em escolher o papel, procurar um postal em uma viagem, encontrar uma papelaria escondida que conte uma história. Estive aqui e lembrei de você. É um tipo de presença que não exige imediatismo, uma amizade que aceita o tempo.




E talvez não seja exatamente da época da TV que eu sinta falta, mas da sensação de que a vida poderia demorar um pouquinho mais para acontecer.



Esse post faz parte da blogagem coletiva Entreblogs. O tema de Julho/26 é Passatempo/Hobbies.

Noites vermelhas

Terminei “Noites Brancas” do Dostoevsky e a essa é a única resenha possível.


Um papo tão incel que me perguntei se estava lendo um livro mesmo ou o twitter.

Mormaço

Comecei o ano direitinho, exercício diário, baixa footprint digital, cozinhando uns pratos elaborados. Degringolou em meados de Janeiro e ainda não consegui ajustar.

Tenho certeza de que, ano passado, desassociei por um tempo. E tive sorte, porque, mesmo sofrendo as consequências, tudo deu certo no final.

Mas agora... Agora confesso me sentir incomodada por esse sufocamento e angústia que acompanha o sol da tarde no escritório.

Não é nada pontual. Os dias nada fogem do esperado para o pré-verão; ora divertidos, ora abafados. Escapei por pouco das layoffs, mas nem isso é capaz de trazer paz, já que, nesse mundo de IA & capitalismo selvagem, não existe vitória proletária.


No mais, sigo o combinado. Os dias quentes, as cores, o vento, a grama. Tudo soa tão convidativo que, mesmo sem controle, a ansiedade se traveste de ingratidão.