Às vezes eu fico pensando se EU não sou a vilã da história, sabe. Quer dizer, eu sou uma das vilãs, isso é claro, mas será que sou a principal?
A gente nunca quer aceitar que é vilã, né. Toda história a gente conta com um pezinho na camponesa de nobre coração, ninguém nunca vai dizer “dai eu fui uma bela de uma filha da puta nessa parte aqui”.
Não me orgulho, juro. Não tem nem justificativa, não tem a quem recorrer. Eu nem religiosa sou, mas às vezes me pego pensando se deixaria de ir pro céu se parasse essa história nesse ponto que ela está hoje.
Eu sei que preciso me libertar, e, olha, eu não estou indo tão mal nos últimos dias. Ainda não segui todo o meu planejamento, mas estou perto. A terapia está ajudando, é verdade, mas também percebi que precisava de outras fontes de dopamina. Quero me sentir inteira de novo, por mim mesma. A estação ajuda, os prospectos do ano — a viagem, a festa, a família — ajudam mais ainda. Eu só preciso ensinar meu cérebro que toda a performance, toda a atmosfera metropolitana não é mais pra mim. E que existe vida após a luz, existe uma Ana que eu ainda não conheço, mas que pode ser tão interessante quanto aquela que morreu.