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vai dar bom

Eu precisava de uma pontinha de esperança essa semana. E veio. Em formato de brotinhos de amoreira, mas veio.

Apego

Tanto ansiei por voltar ao passado que, quando cheguei, não havia mais ninguém lá.

Enfim o outono

aceitei que até o verão encerra ciclos
aceitei que a solidão é uma virtude
aceitei que o mundo pode seguir sem mim
aceitei que posso ser mais aos olhos do outro
aceitei que existe beleza em reviver a dor
aceitei que existe beleza em deixar pra trás
aceitei que construí tudo o que precisava
    aceitei que não preciso ter medo da plenitude
    aceitei que posso decidir meus sentimentos
    aceitei que esta vida é real


aceitei que você me curou.

A vida no segundo verão

O verão se move completamente alheio ao tempo comum; os dias seguem longos, mas as semanas passam em um piscar. Arrasto-me enquanto contabilizo todas as expectativas de 2025, mas logo me assusto ao trocar a folhinha do calendário. Eu deveria mesmo era estar com alguns projetos do trabalho já meio caminho andado, mas desconfio que essa lentidão me conforte de um jeito preguiçoso.


O verão sufoca. Esse verão particularmente, sendo o mais singular em pelo menos uns 15 anos. Poder me ver refletida nos olhos de outro ser humano soa restritivo, mas hoje em dia carrega uma certa liberdade. Quer dizer, eu sempre me libertei sendo mil pessoas a cada instante, agora eu apenas me desdobro em mil e uma.



Apesar de tudo, aguardo o outono com paciência. Não sei se toda essa experiência me tornou mais humilde, mas aceito que ele chegará quando tiver de chegar, e que até lá eu já terei vivido mais uma vida e meia.


Seria típico me desesperar por não conhecer a pessoa que serei quando as folhas avermelharem, mas, hoje em dia, tampouco me reconheço a cada manhã. Melhor, sinto-me até em paz sobre isso. Não pela romantização social, deus me livre, mas por uma certa aceitação exaustiva. No fim, reconheço que a vida sempre foi imprevisível assim, é só que, sozinha, era muito mais fácil manter e me iludir sobre meu controle.

Adulting

 Minha mãe está me estressando um bocado hoje. Eu aqui, lutando contra a dor de cabeça, e ela me enchendo com problemas que não fazem muito sentido. Eu queria poder voltar no tempo e contar pro meu eu adolescente que um dia eu viraria mãe da minha mãe. Acho que teria um ataque de risos. Ela sempre se achou tão dona de si, sempre dando ordens a tudo e todos. Agora é toda perdidinha, precisa de ajuda até pra marcar uma consulta.


Essa realização de que os pais viram crianças é cruel. Porque foi ontem que ela dava conta de tudo. Eu pisquei e de repente quem toma conta de tudo sou eu. Sim, é bem cruel.




O tempo tá passando, né, Sueli

 Aos poucos tudo vai se ajeitando, fazendo sentido. O que eu esperava também? É óbvio que é uma existência nova, uma mudança de cabo a rabo.


Os dias são todos diferentes, mas iguais entre si. Às vezes bate uma claustrofobia, um desespero incapacitante. Mas me distraio, como já fiz tantas vezes, e logo passa. As semanas passam, os meses, tenho certeza que os anos também. E tudo isso não passará de um drama transitório, de algo que eu nem me recordo muito bem.


Que seja assim, mas que eu também saiba aproveitar a caminhada.

Exausta

O que eu preciso mesmo é tirar um dia para deitar no chão da sala e ler um livro inteirinho assim, do começo ao fim.

Acho que a última vez que fiz isso ainda era adolescente, sem preocupações na cachola e com muita rede de apoio.

'Cause we are living in a material world

Comecei o ano toda trabalhada no minimalismo, querendo diminuir meu consumo e viver das coisas que a natureza dá. Ha. Estamos em Abril e eu já tenho uma lista imensa de bens materiais que eu quero, incluindo dois sofás, porque meu deus do céu eu não vou ser feliz se não comprar DOIS.

Dai eu ainda me engano, digo que essa é a última coisa (s!) que vou querer esse ano, mas eu aposto bem alto que não. Logo surge algum objeto que eu não vou ser capaz de ser feliz sem, e viro essa chacota de mim mesma, querendo coisas para me distrair do patético vazio da minha meaningless consumer-driver life.



Cadê aquela persona austero-franciscana, tão menos superficial de 8 anos atrás? Pelo visto, ficou por lá e não faz quaisquer planos de voltar.

The one with the city

Não é que 2022 tenha sido um ano horrível, mas definitivamente não foi um ano que eu classificaria como bom. Eu até poderia rascunhar aqui toda uma lista de culpados pela decepção, mas acabaria não sendo tão longa quanto minha própria lista de culpas.


Quando lembrar desse ano, acho que inevitavelmente vou pensar naquela semana em Maio, dias antes de viajar para o Brasil. A enxaqueca já me inibia de fazer quase qualquer coisa (incluindo atividades normais como, sei lá, dormir), mas lá estava eu, colada na cadeira do escritório, absorta em um monitor que pouco ajudava com a dor (para não dizer o quanto contribuia em piorá-la), tentando terminar um relatório pedido de última hora. 


Tenho aquela cena bem vívida; a cabeça com pelo menos vinte pontos de inchaço, onde as agulhadas da anestesia entraram, depois de ter sido arrastada ao pronto socorro por um marido desesperado. Tudo saía de foco, enquanto eu tentava espremer um pouco mais da minha limitada energia em prol do relatório. 


Aquele momento vai ficar para sempre como uma representação fiel do que foi 2022; um constante exercício de não ser (ou não estar) suficiente, uma síndrome do impostor e uma catastrofização que levou embora não só minha saúde mental, mas a física também.


Para não ser de todo ingrata, reconheço que coisas legais aconteceram, claro, mas acho que termino o ciclo com essa sensação sufocante de não ter aproveitado o que deveria. Aliás, pior, de ter aproveitado demais o que não deveria. Imergi a fundo em cada frustração, me entreguei a tragédias delineadas (apenas) na minha cabeça, e deixei que isso guiasse boa parte das minhas emoções.



Semana passada fui à Nova York, com o restinho do que sobrou das férias. Eu adorei a viagem, mas nos últimos dias sofri essa epifania que me lembrou bastante do por que eu abandonei a cidade grande há alguns anos. Foi uma epifania bem pessoal, que não faz muito sentido explicar aqui, mas posso dizer que nenhuma palavra descreveria o alívio que senti ao voltar e ver as montanhas, as minhas montanhas.


De madrugada, exausta, retirando pelo menos dois centímetros de neve do carro para conseguir chegar em casa, eu me sentia feliz por estar aqui. Apesar de tudo, sou muito grata pelo que me permite amar muito mais essa minha vidinha rotineira que qualquer vida de viagem.




Prometi a mim mesma que simplificar (o layout, os textos, o ritual) me traria mais por esses lados e, bem, não aconteceu. Talvez ano que vem, talvez nunca mais. Se tem uma experiência que quero levar para 2023, é que pressões e expectativas já não me cabem mais.

For all the eggs in one basket

Passei esses últimos meses submersa em relatos, devorando qualquer pedaço de narrativa que pudesse me iludir sobre mecanismos de enfrentamento e precaução natural. Prendi-me a fios de esperança frágeis, a maioria travestidos de progressões lineares tão impecáveis que faziam meu estômago revirar de despeito.


Por fim, aceitei (talvez uns cinquenta vídeos tarde demais) que esse processo é intrinsecamente pessoal e intransferível. Reconheci também que não há meios de torná-lo menos angustiante – culpar agentes externos, fingir indiferença, ou até mesmo caçoar dos que levam tudo a sério demais –, you name it, eu tentei.


Ainda não cheguei ao estágio de evitar o assunto, mas o sinto iminente. Arquivo conversas inteiras no celular, me convenço sobre ínfimos percalços, e planejo meus passos de modo a tornar as semanas distrativas, ou minimamente suportáveis.




Não posso dizer que dói, mas assusta. Não que as coisas jamais tenham funcionado dessa forma, mas mal consigo planejar o resto do ano com clareza. Veja bem, eu sei das alternativas, e talvez ainda possa traçar um cronograma no escuro, mas o que eu queria mesmo, de verdade, era não precisar de nenhuma programação. Não era assim que era pra ser?


Ainda assim, me julgo até resiliente nessa batalha diária pela censura do arrependimento. A terapia já me advertiu sobre a linearidade (ou a falta dela) em tantos contextos que, se eu me permitir acreditar por um segundo que seja, todo o esforço seria em vão.

Resenha Literária: A Biblioteca da Meia-Noite

Você já leu a sinopse de um livro e ele parecia tudo o que você precisava naquele momento?
Foi o que senti quando descobri o The Midnight Library na lista de melhor ficção do Goodreads Choice Awards 2020. Veja bem, eu tento fugir de leituras em inglês o máximo possível (parece que não consigo imergir na história da mesma forma), mas a premissa me encantou tanto, que eu não queria esperar pela tradução para saber mais sobre a tal biblioteca mágica.


[Alerta de Gatilho: Suicídio] O livro é sobre Nora Seed, uma mulher com depressão que, arrependida sobre o rumo que sua vida tomou, tenta se suicidar. Enquanto se encontra entre a vida e a morte, Nora visita a Biblioteca da Meia Noite, onde cada livro conta sua história em diferentes cenários, baseados em escolhas que ela poderia ter feito no passado.
Ao "entrar" nesses livros, ela é capaz de viver cada uma dessas opções, desfazendo arrependimentos antigos, e até escolhendo uma vida que ela prefira mais que as outras. Ela poderá continuar experimentando cada um desses livros, enquanto ainda mantiver sua vontade de existir.


Com uma sinopse dessas, já é de se esperar que o arrependimento seja o tema central da história de Nora. Ao mergulhar nos primeiros capítulos, é impossível não imaginar como seria nossa biblioteca, quais narrativas encontraríamos e quais escolhas gostaríamos de refazer. O livro bate muito na tecla de nossas decisões erradas serem baseadas em meras suposições, ou seja, jamais saberemos se uma escolha diferente teria saído de fato melhor (ou pior). Para mim, essa ideia foi o grande ponto positivo da história, mas, infelizmente, foi o único.

Nós precisarmos ser apenas uma única pessoa. Nós precisamos sentir apenas uma única  existência. Nós não precisamos fazer tudo para sermos tudo, porque já somos infinitos. Enquanto estivermos vivos, sempre teremos um futuro de inúmeras possibilidades.

Confesso que, em determinado momento, eu já estava um tanto cansada das vidas de Nora. Por mais que as profissões, residências e até interesses românticos mudassem, as histórias acabavam ficando bem repetitivas. Não é possível se apegar aos diferentes cenários, porque eles são explorados de forma bem superficial, e, lá pela terceira tentativa, já entendemos há muito onde o autor quer chegar.

Talvez eu tenha elevado demais minhas expectativas por causa do prêmio do Goodreads, mas achei também que o livro pouco acrescentou ao debate sobre saúde mental e suicídio. Não foram poucas as vezes que tive a impressão de estar lendo uma obra de auto-ajuda, travestida de ficção apenas para dar a liga em frases de efeito motivacionais.

Eu resumiria a moral do livro por aquela máxima de que, ao apagarmos nossos erros, apagamos também nossos acertos, pois não seremos mais quem nos tornamos. E, apesar de ser uma lição válida, senti que o livro a expôs de forma exageradamente didática e previsível, beirando quase o infantil.


Eu queria muito ter gostado desse livro. De verdade. Porém, por mais que a ideia da biblioteca fosse interessante, a execução deixou a desejar. Não apenas os ensinamentos de Nora se tornam mais e mais clichês a cada nova vida, mas o livro também não faz jus aos assuntos delicados que se propõe a abordar.

No mais, se você se interessa pela ideia de reviver arrependimentos passados, queria deixar uma recomendação de uma das minhas séries favoritas da vida, Being Erica. Na série, Erica também tem a chance de refazer escolhas passadas por poderes mágicos (não em uma biblioteca, mas na terapia, olha que acessível), porém os aprendizados, e até mesmo as frases de efeito, são apresentados de forma bem menos óbvia ou negligente.

The Midnight Library, Matt Haig  ★★☆☆☆

Ps: Terminei a leitura de The Midnight Library em Junho/21.
A tradução foi lançada pela Editora Bertrand em Setembro/21 e pode ser encontrada aqui.

De volta às origens

Foi em clima de ano novo que resolvi mudar o layout do blog mais uma vez.


É pra ver se dá um gás, sabe? Pra ver se eu retomo aquela energia que eu costumava ter com projetinhos pessoais, quando o mundo "dos adultos", do corona e do caos mundial não me engolia por inteiro.

(Queria abrir um parêntese aqui que, olha, antes fosse só o blog. Ultimamente parece que tudo na vida anda meio pausado. Estamos vivendo nessa interminável sala de espera, onde até as mudanças mais drásticas parecem mais do mesmo.)

Eu também senti que, cada vez que levava o layout para um lado mais "formal" - carousel, posts cortadinhos, sidebar cheia de widgets -, menos eu tinha vontade de escrever. Porque não dava para publicar um post como esse, caótico e desestruturado, num layout todo moderno e aesthetic do etsy.

Até pensei em desistir. Ah, se pensei. Precisei sentar, reler, abrir janela, fechar janela, cavucar a mente em um questionamento incessante sobre esse espaço ser algo que eu realmente gosto de fazer, ou apenas mais uma cobrança sem sentido da minha cabeça. 


E, para ser sincera, ainda não sei dizer. Talvez seja mesmo mais uma manifestacão dessa pressão auto imposta, uma obrigação invisível que mais sobrecarrega e pouco satisfaz. Porém, nesse momento, eu também sei que ainda não estou pronta para desistir. Em um ano em que as redes atingiram o pico da toxicidade, acho que preciso de uma morada só minha, formatada do meu jeito, para falar sobre o que eu tiver vontade, sem filtros pré configurados ou limite de 280 caracteres.

Acho importante mencionar que eu sempre tive muita dificuldade com a escrita. Ainda lembro bem daquele sentimento de pânico quando a professora de redação pedia para arrancarmos uma folha do caderno. Olhar para os lados e enxergar rostos compenetrados, papéis preenchidos enquanto minha folha permanecia em branco, era uma cena tão frequente e traumatizante que acho que ainda revivo a sensação a cada vez que abro o editor para começar um novo post.

Aliás, a ironia de ter escolhido minha profissão pensando no alívio de nunca mais ter uma aula de português ou ser obrigada a escrever uma dissertaçãozinha sequer, até descobrir que, bem, tudo é escrita. Desde a apresentação sobre o modelo mais preciso, até o email informando as conclusões do experimento, quem sabe estruturar frases vai longe também em Exatas, e quanto mais eu encontrar formas de treinar essa habilidade, melhor para mim. Em todos os campos.


Mesmo eu não gostando de resoluções, fica aqui meu desejo para 2022; ter mais ânimo para visitar esse espaço, nem que para publicar um único parágrafo ou uma tag bobinha. Que aqui possa ser uma expressão do que resta do lado criativo do meu cérebro, minha fuga particular do mundo da lógica no qual me afogo em dias úteis.

Como venho mantendo minha sanidade na pandemia

Ou como não perdi completamente minha já tão limitada estabilidade emocional, mesmo vivendo em um loop infinito estilo Groundhog Day.

Se me dissessem, lá em março de 2020, que um ano depois isso tudo ainda não teria acabado, eu não acreditaria. Ou talvez até acreditasse, no mais puro deboche. "Nada está ruim o suficiente que não possa piorar", resmungaria resignada.

O fato é que, 365 dias depois, quase nada mudou. 365 voltas cujos acontecimentos poderiam ser facilmente condensados em uma única. Acordar, não se dar ao trabalho de tirar o pijama, conversar com uma tela, dormir.

Tudo bem, talvez eu esteja sendo injusta, e um tantinho melancólica. Por enquanto, eu sigo fazendo o possível para não me afogar, e até tenho alguns dias bons de normalidade aqui e ali. São os dias que eu mesma me forço a espremer alguns limões, a começar um novo projeto, inventar algo na cozinha, ou simplesmente deitar por horas na cama, com o gato ronronando e um livro a tiracolo.


Seguir o fluxo

Setembro foi um mês difícil. Assim, muito difícil mesmo. Tive de lidar com emoções que desconhecia, ou que há muito não tinha contato. Tive não, ainda estou lidando, aprendendo, superando. Esquecer jamais, porque é parte de mim, mas aos pouquinhos, a cada dia, descobrir como moldar o sofrimento em boas lembranças. Não sou mais a Kari do dia primeiro de setembro, e nem deveria ser.

Venho me aprofundando nessa aceitação da impermanência. Porque talvez eu pudesse me empenhar - um esforço confortante, mas ineficaz - em manter a "vida antiga". Ou eu poderia simplesmente aceitar que tudo está mudado para sempre. Eu, minha família. E a única certeza que podemos ter, para sempre, é que continuaremos em constante transição. Que pena, mas que bom; afinal, a dor também é impermanente.

Foto inspirada pelo projeto Whats your Grief
Lembrei desse espaço, porque, apesar de dizerem por aí que a arte de blogar está morta, ainda é um lugar em que posso exercitar a pequena veia criativa que carrego. Sempre foi por mim, sabe? Seja por registrar memórias, pelo exercício mental de conciliar imagens e texto, por expressar esse amadorismo (!) que tenho com as palavras. Por extravasar também, mas de um jeito só meu; contido e libertador. Senti falta dos posts levinhos de listas e resenhas, mas senti falta também de posts em que tiro um pouco dessa máscara de proteção e transpareço o que me inquieta.

Aproveitei para limpar minha lista no feedly e, confesso, me entristeceu um tantinho ter de passar tantos blog para a pasta de Desatualizados. Não que eu tenha direito de ficar chateada, até o momento também sou parte do problema. Ao mesmo tempo, me encheu de alegria ver que projetinhos ainda vivem e que existem tantos blogueiros determinados a manter essa tradição. Já mencionei aqui como blogs-diarinho foram parte do meu primeiro contato com a internet, e acredito mesmo que essa fase da minha vida ainda não está concluída.

Espero que me aceitem de volta :).

Down by the lake

Eu não sou muito de me exercitar, mas as últimas duas noites mal dormidas suplicavam por alguma mudança de hábito.
Fui fazer uma trilha levinha perto de casa. Voltei com uma leve dor de cabeça, mas vai valer a pena se à noite eu conseguir dormir 5h seguidas que seja.

São 3h30 e estou com medo de dormir e ter outro pesadelo. Estou exausta de acordar com o coração acelerado. O gato, que sem pudores já havia declarado sua preferência pelo marido, permaneceu ao meu lado essa noite. 
Não gosto disso. Um presságio frio e agourento, como aquela noite da dor na perna há 30 anos.

do ... while

Não sei se estou enlouquecendo, mas, aos poucos, a quarentena já não parece sufocante. Aliás, nem saberia explicar por que cheguei a me sentir desconfortável, já que a quarentena é o meu momento.
Ignorando a circunstância trágica que nos encontramos, a quarentena é basicamente como se o mundo de repente fosse obrigado a viver a vida do meu jeito. Um ciclo de cama, sofá, livros, netflix, celular, delivery, rinse and repeat. Hobbies começados e inacabados, pessoas que só existem em uma redoma virtual, uma busca incessante por distrações aprisionadas. Tudo isso é parte do meu cotidiano por eras que muito se estendem além de março2020.

Seria o desconforto fruto de dividir parte do meu mundo com todo o mundo?



Da quarentena

Em muitos aspectos, por aqui, a vida não parou. Não é querendo desdenhar dos quarenteners, mas nunca trabalhei tanto nessa vida. Minha romantização do home office morreu em 2020, quando descobri que a gente acaba trabalhando muito mais do que deveria e, por vezes, produzindo até menos. Ainda não consigo acreditar nessas palavras saídas da minha boca, mas sinto falta. Sinto falta do escritório, das pessoas, da minha mesa, dos almoços, de expulsar quem insiste em ficar só mais 5 minutinhos na sala de reunião que você reservou com antecedência.

O escritório agora invade a santa paz da minha casa e sinto-me de prontidão 24-7. O expediente corre noite adentro, porque me sinto culpada (pasmém) de sair daquela cadeira às 5. Eu ainda tenho um ofício, afinal, e deveria ser grata por isso.

Work-life balance não há. Saúde mental muito menos.

Saudade dessa vista, né minha filha?

About changes


"(...) she only loved two things. The first was her long dark hair. The second was how easily she could cut it off and feel nothing."

Refúgio


Passos, risos
gente distante
realidade dilacerante

Não basta contemplar a cena
é preciso enxergar na penumbra
de um sofrimento a ermo
de um ego enfermo

A vida a ela foi dada
protegida, manipulada
com dolos ocultos
a verdade manchada

Fugir?
Para quê? Para onde?
Não importa quanto sofrimento
"é com quem!" o incerto sempre lhe responde

"Lá fora a vida é vivida" a disseram
- "ninguém se importa".
e os baques cessam por um momento
e suas quimeras tornam-se seu alento

Mais fácil viver no leviano
a ver o sol refletido
a cheiro de livro, a prazer incompleto
A esplendor por hora demasiado indigesto

Mas se o verdadeiro sentido
somente é encontrado dentro dela
de que adiantariam
os passos, os risos, a falsa janela?