just the city
Às vezes eu fico pensando se EU não sou a vilã da história, sabe. Quer dizer, eu sou uma das vilãs, isso é claro, mas será que sou a principal?
A gente nunca quer aceitar que é vilã, né. Toda história a gente conta com um pezinho na camponesa de nobre coração, ninguém nunca vai dizer “dai eu fui uma bela de uma filha da puta nessa parte aqui”.
Não me orgulho, juro. Não tem nem justificativa, não tem a quem recorrer. Eu nem religiosa sou, mas às vezes me pego pensando se deixaria de ir pro céu se parasse essa história nesse ponto que ela está hoje.
Eu sei que preciso me libertar, e, olha, eu não estou indo tão mal nos últimos dias. Ainda não segui todo o meu planejamento, mas estou perto. A terapia está ajudando, é verdade, mas também percebi que precisava de outras fontes de dopamina. Quero me sentir inteira de novo, por mim mesma. A estação ajuda, os prospectos do ano — a viagem, a festa, a família — ajudam mais ainda. Eu só preciso ensinar meu cérebro que toda a performance, toda a atmosfera metropolitana não é mais pra mim. E que existe vida após a luz, existe uma Ana que eu ainda não conheço, mas que pode ser tão interessante quanto aquela que morreu.
Para você mesma
No fundo, eu queria ser sua amiga.
Dizer:
— Olha, eu entendo. Eu também fui vítima de jogos, também achei que tinha enlouquecido. Perdi as esperanças, me arrancou a inocência, me sugou a energia.
Mas, veja bem, eu sobrevivi. Toda desgraçada da cabeça, é verdade, mas viva. Pra contar e pra viver outras histórias.
Queria te dizer que me libertei, mas ainda não consegui. Acho que você também não, né? Mas vamos juntas. Quem sabe em meio a sessões de expurgação de demônio a gente não acha uma brechinha para cura?
Adulting
Minha mãe está me estressando um bocado hoje. Eu aqui, lutando contra a dor de cabeça, e ela me enchendo com problemas que ela mesma criou. Eu queria poder voltar no tempo e contar pro meu eu adolescente que um dia eu viraria mãe da minha mãe. Acho que teria um ataque de risos. Ela sempre se achou tão dona de si, sempre dando ordens a tudo e todos. Agora é toda perdidinha, precisa de ajuda até pra marcar uma consulta.
Essa realização de que os pais viram crianças é bem cruel. Porque foi ontem que ela dava conta de tudo. Eu pisquei e de repente quem toma conta de tudo sou eu. É cruel.
Uma certeza que eu tenho é de que não quero colocar esse peso nas costas do meu filho. Eu preciso assegurar minha velhice para que ele curta sua vida em paz, sem a obrigação de ser babá de velha.
O tempo tá passando né Sueli
pro labore
De novo essa história?
O trabalhador não tem um minuto de paz nessa caralha desse mundo.
Dos sonhos
Parece que não importa quanto tempo passe, eu nunca vou esquecer. Não em um nivel consciente, claro, mas toda semana eu sonho pelo menos uma vez. E eu sempre sei, no sonho, quero dizer, admito o que jamais admitiria acordada.
Minha mãe diria que minha existência sequer é sentida, por que eu gastaria espaço mental? Eu diria que nunca me importei com isso. Esse argumento de que só eu sinto, de que a vida do outro continua, nunca bateu comigo. Não é sobre ele, é sobre mim.
Mantenho-me longe por meio de promessas. É entre eu e Nossa Senhora agora, é a resistência por recompensa. Não achei outro modo de fazer funcionar.
Tantos anos. Fui forte na esperança de passar. Agora aceito que talvez não passe nunca. Que bom que no passado escolhi a mim. Não sei se teria essa força hoje.